Poema Meu - Conformidade


O vento cortante garante que chegue até mim o seu adeus.
Meus ouvidos, ávidos por ouvir sua voz — a mesma que antes sussurrava —
Duas palavras que traziam a este corpo aflito algum conforto.
Absorto, vivo dias de solidão, esperando acordar no passado,
Naquela quinta-feira em que descobri o amor da minha vida.
Quando, enfim revelada, surgiu a minha face magoada,
E ela, pendurada em meu pescoço, com as pontas dos pés na areia —
Areia de ampulheta, que só me entrega os dias que virão,
As noites futuras, onde a única certeza
É saber que você não estará.
Não está comigo nesta noite presente.

O vento cortante garante que chegue até mim o seu adeus.
Como açoite, as lágrimas me cortam a fronte envelhecida
Da velha máscara de sorrir para não causar incertezas.
Máscara que de nada serve diante dos teus olhos,
Que me enxergam, e por um instante, transportam você de volta pra mim.
Mas o vazio ainda ecoa — um fim que não termina.
Resiste, e preenche por completo este recipiente quebrado,
Transbordando de dúvidas que só o acaso compreende.
Pois é o destino quem traça os encontros que atravessam vidas.


por Afonso Baldez

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