Cadê a Crônica? - A Faxina e as Coisas Dela
Era domingo. Ele já havia arrumado toda a casa: louça, roupa, piso, banheiro — tudo limpo e organizado. No entanto, algo ainda o incomodava. Havia um lugar que ele não ousara arrumar, um espaço que, de certa forma, lhe causava medo, desconforto, talvez até tristeza. Mas era necessário. Ele precisava de organização para seguir em frente, para relaxar, para descansar.
O que permanecia pendente era sua cômoda de questões mal resolvidas. Nela, guardava tudo: problemas, inseguranças, medos, entre outras coisas. Já fazia muito tempo que não a organizava.
Eram quase três horas da tarde. Ele passou um café e seguiu em direção à cômoda. Ao começar a tirar as gavetas dos encaixes, as questões começaram a saltar para fora. O coração acelerou. Será que conseguiria lidar com tudo aquilo? Foi então que encontrou algo que o preencheu com um sentimento dúbio — não sabia se bom ou ruim. Ainda estava por decidir.
Entre tantas lembranças e pendências, encontrou algo dela. Com ela. Com eles. Ainda era estranho tentar definir. Era um olhar intrigado, de lado, acompanhado de um comentário despretensioso (ou talvez pretensioso) sobre sua barba. Lembrou que fora a segunda vez que a vira. Na primeira, não dera muita importância — o dia fora agitado, cheio de pessoas e compromissos. Mas se lembrava dos olhos: negros, amendoados, tão profundos que mal se distinguia íris de pupila. Olhos que, mais tarde, o veriam por inteiro. Naquele tempo, porém, havia só olhares, já que a pandemia ainda escondia boa parte dos rostos.
Encontrou também uma quinta-feira à noite. Um dia cheio de coisas: histórias, fascínio, o som do mar, o cabelo cacheado, a brisa salgada, as estrelas, a areia sob os pés, o cheiro dela (ah, como ela cheirava bem). As mãos dele estavam suadas, trêmulas. Naquela noite houve o primeiro beijo — e que beijo. Enquanto ela se aproximava, afundando levemente na areia, ele a encarava, sem saber o que viria depois, mas desejando muito aquele momento. Ao beijá-la, não cabia mais em si. Estava extasiado, apaixonado. Aquela quinta-feira carregava muitas primeiras vezes. Nunca mais uma quinta-feira foi igual — mesmo com vinho, com Liniker, com o som do mar.
Vasculhando mais fundo, encontrou uma pérola. Encontrou-se como pérola. Lembrou-se de quando estavam cansados do dia anterior e só queriam dormir mais e melhor. Apesar de tudo que já haviam vivido, ainda estavam ali, juntos. Ela deitada em seu braço direito — que estava levemente dormente, mas ele não se importava. Ainda sentia o cheiro gostoso do cabelo dela e ria da ocasião em que ela ouviu “fofinha”, quando, na verdade, ele dissera “tá frio aqui fora”. Em outro momento, ela disse “se vira” — e ele, sem entender, virou-se de costas. Foi então que aqueles braços pequenos se tornaram gigantes e reconfortantes. Ele era a pérola. Teve esse dia, e o dia seguinte. E, no dia seguinte, a despedida.
Encontrou muitas coisas dela: caminhadas regadas a cerveja, conversas inspiradas, omeletes dignos de prêmio, cafés, músicas, uma dança no supermercado, um abraço pelado na chuva, um show de rock, um “eu te amo” na transa, cochilos no peito dele, leituras dela para ele, dele para ela, poesias aos montes, filmes, as comidas gostosas que ela fazia, o lugar favorito dele, a posição de abraço favorita dela, mais música, perguntas existenciais, um monólogo interrompido por um tombo inesperado, a alegria dela ao receber o tarô que tanto estimava, as falas sobre o que admirava, os cheiros, os perfumes, os carinhos, os olhares, os beijos, as conchinhas. Algumas dessas lembranças o faziam sorrir; outras, chorar. Mas todas, sem exceção, eram dela.
Achou também dois momentos muito especiais. No primeiro, chorou nos braços dela pela primeira vez. Braços que tantas vezes o provocaram de outras formas, mas que, naquele instante, traziam a crueza da vida. Ela o fazia ser real, ser ele mesmo. Dentre todas as pessoas, ela fora quem mais o conheceu de verdade. Ao segurar aquela lembrança nas mãos, sua única vontade era voltar para aqueles braços. Então abraçou a lembrança como ela o havia abraçado — e chorou. Chorou como naquele dia. Naquele momento, a arrumação da cômoda podia esperar.
O outro envolvia choro também — mas dela. Após uma briga, enquanto ele recolhia cacos de vidro por toda a casa, ela entrou pela porta da cozinha, atirou-se em seu peito e chorou. Chorou como nunca. Ele, atônito, não sabia o que fazer — nunca a vira tão vulnerável. Apenas a envolveu em seus braços e foi abrigo. Sentiu-se, naquele instante, como ela fora para ele tantas vezes: casa.
Foram muitas as coisas que ele encontrou dela. E, ao encontrar, foi guardando cuidadosamente. Organizou a gaveta com carinho, para que o acesso a todas aquelas memórias fosse fácil, direto. Já não a via como uma simples gaveta, mas como um baú de tesouros. Era isso que representava: tesouros.
Então se levantou, segurou a gaveta com firmeza e cuidado, e caminhou em direção à cômoda, passando por cima dos problemas e das questões mal resolvidas. Ao chegar, encaixou a gaveta lentamente, ainda olhando para dentro, para tudo o que ela continha. Um suspiro profundo se misturou ao baque seco da gaveta ao se fechar.
Deu alguns passos para trás. Ao seu redor estavam todos os problemas, questões e inseguranças que antes habitavam aquela cômoda. Mas agora, ela já não era mais a cômoda deles. Era a cômoda das coisas dela.
Já não ligava mais para o que antes ali estava. Iria lidar com tudo, superar o que precisasse, tratar das inseguranças, resolver os problemas ou descartá-los, se necessário. E, quando quisesse se sentir feliz, amado, vivo, visto — voltaria para aquela cômoda. Agora com apenas uma única gaveta, mas a mais preciosa de todas: a gaveta com as coisas dela.

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