Poema Meu - Amiga


Amigos, nós somos
em pacto silencioso,
cerca baixa
que nunca impediu o corpo
de olhar além.

Há em nós
um querer impraticável,
desejos que sabem
que não deveriam existir
— e por isso insistem.

Houve a noite
em que o mundo se aquietou
e só restou a mistura:
o riso no canto da boca
que virou suspiro,
o gemido contido,
a mordida breve no lábio,
como quem tenta se salvar
de si
e acaba por se entregar a mim.

E, felizmente, eu falhei.

Tuas mãos não pediam pressa,
pediam carne.
Cada arrepio era um argumento
contra o medo,
cada calafrio,
uma confissão muda
de que o desejo
não aprende a ser amigo.

Ainda assim, nos prostramos
em margens seguras de afeto,
com mãos que sabem demais
e prometem pouco.
Ansiamos um pelo outro
como quem aceita
não atravessar o rio,
mas insiste em voltar
para molhar os pés.

Porque te quero assim
— sem posse, sem futuro —
também como forma de amor,
de amar.
Um fogo baixo, constante,
que arde
e não pede salvação.

por Afonso Baldez

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