Poema Meu - Matrioska


E essas diversas camadas
Que choram ao invés de fazer chorar
Dispo-me da minha casca,
lenta, dolorosamente,
camada por camada,
até tocar o interior enegrecido,
até alcançar a alma maculada.

São andares e mais andares
descidos sem mapa, sem luz,
até a escuridão do meu ser.
Sem saber o que sou,
sem saber o que sei.
O certo é apenas isto:
essa imensidão de nada
também é parte do que sou.

Übermensch — (ubamensch)
super-homem, sobre-humano;
talvez seja este o meu plano:
pavimentar o caminho com ideais,
com a coragem do vir-a-ser,
ser enquanto reconheço
tudo aquilo que não sou
e ainda posso deixar de ser.

Sou?
Quem sou?!
O que sou?

Primeiro retirei a máscara de sorrir,
depois a armadura de proteger,
em seguida a pele que habito.
Então arranquei os órgãos em conflito:
cabeça e coração.

E o que sobrou?

Sobrou o espaço.
Restou um silêncio fértil.
A chance de construir-me
não como um corpo esquecido,
mas como quem encontra, no fundo,
uma centelha pequena —
e ainda assim suficiente —
pra que eu me incendeie.

por Afonso Baldez

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