Cadê a Crônica - Carta ao (Des)amor


Querido desamor,

Ninguém me avisou que a falta dói tanto, a ponto de eu querer implodir. Dói — e não é pouco. Dói, e a dor é maior por causa de tudo o que eu odeio lembrar. Eu odeio lembrar de tantas coisas, a ponto de pensar que a dor vem disso: do que eu odeio e ainda lembro.

Odeio aquele comentário pretensioso sobre a minha barba. Aqueles olhos grandes e amendoados em uma face mascarada. Os óleos, as essências cítricas, a troca de livros, de chocolates. Odeio o bilhete falando sobre ouvir Neruda da minha voz. Odeio aquela quinta-feira. Odeio vinho de tampa, praia, maresia. Odeio a busca por abrigo, por privacidade. Odeio o cansaço que sentimos no dia seguinte, na sexta-feira. Odeio a conchinha. Odeio a ternura daquele momento.

Odeio o instante em que chorei pela primeira vez em seu colo — por aceitar quem sou, por ansiar quem você se tornou. Odeio a sua preocupação por ter me deixado vulnerável com um estranho. Odeio a falência do nosso bar favorito. Odeio as madrugadas no escuro, com música boa. Odeio muito as caminhadas de troca, as conversas com cerveja, com curiosidade, com a natureza e o mundo. São tantas conversas, tantas. Odeio o fato de ter conhecido mais de mim por meio de você. Odeio ter gostado mais de mim por sua causa.

Sempre vou odiar lembrar das coisas que fizemos juntos — e, mais ainda, das que planejei e nunca cumpri com você, com a gente. Odeio quando você não tirava o tapete do chão depois do banho. Quando deixava aquele maldito copo perto da pia, sempre com a mesma desculpa: “vou usar de novo”. Odeio as manias. Os rituais. Odeio dormir agora, porque faltam suas pernas sobre o meu corpo. Odeio chegar em casa, porque falta você me contando como foi o seu dia.

Acho que o que mais odeio em mim é essa capacidade de só lembrar do melhor — e de ser incapaz de sustentar o pior que também aconteceu.

Eu me odeio. Odeio me odiar, porque sei que você não iria querer isso. Você dizia que eu sou alguém bom, bonito, inteligente — mas cabeça-dura demais. Odeio ser cabeça-dura. Odeio você não saber de tudo. Odeio o fato de eu nem saber como te expor tudo, como pedir ajuda.

Agora, odiando tudo, entendo o que dizem sobre a linha tênue entre odiar e amar. Se odeio tanto, é porque ainda amo. Porque ainda te amo. E odeio o fato de que esse amor só aumenta — mesmo agora, odiando tanto.

Eu te amo. Eu te odeio. Mas amo ainda mais, na medida exata em que te amo — hoje e sempre — com ódio no coração, do teu odiado amor.

Te amo.

por Afonso Baldez

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