Poema Meu - Analogia
nunca vi o mar nem a infinitude do oceano.
Ainda lembro a aflição:
pés fincados na areia,
minhas mãos segurando o coração.
Cresci sem saber
que seria preciso nadar —
que mergulhar eu teria de aprender
para o oceano inteiro explorar.
Há coisas que ninguém conta
sobre enfrentar as ondas,
sobre romper a água cortante de tão gelada,
o fôlego que falta,
o quanto cansa se não se está preparado.
Fui um garoto da cidade;
mal me banhava em sangas,
mas, astuto, buscava me molhar:
mergulhos de cabeça em poços e piscinas,
sempre certo de que voltaria à superfície
sem problema, sem medo.
Com o oceano é diferente:
é sinônimo de segredo —
escuro, profundo, infinito,
um completo mistério;
estranhamente belo,
e eu, com medo, adentrei o intempérie.
Sendo ainda um garoto da cidade,
acostumado a mergulhos rasos,
fui engolido pelo oceano.
O medo me tomou, fiquei apavorado —
não por temer a própria morte,
mas de profanar aquela água fria e pura
com o meu corpo imaculado.
por Afonso Baldez

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