Cadê a Crônica? - A Carta e a Corda


— A gente tem alguma corda em casa? — ele perguntou, curioso.
— Pra que você precisa de uma corda? — ela devolveu, surpresa.
— Nada… só pra saber. — respondeu, já distante.



Quando a polícia entrou na casa, a primeira impressão foi a de abandono — não recente, mas antigo, como se o tempo ali tivesse parado antes de ir embora.

Ainda assim, sabiam: até dois dias antes, alguém vivera ali.

Tudo estava em ordem.

A luz atravessava a janela da sala e repousava sobre os móveis com um tom sépia — uma tristeza calma, quase confortável. Não havia poeira. Nenhum objeto fora do lugar. Era como se a casa tivesse sido preparada para não ser tocada novamente.

O cheiro era estranho: frutas maduras e produtos de limpeza. As frutas haviam sido esquecidas. O resto, não.

Na estante, os livros seguiam uma ordem precisa: autores, títulos, alinhamento exato. Os jogos, ao lado, repetiam o mesmo padrão silencioso.

Na cozinha, nenhuma louça à vista. A pia e o fogão refletiam como espelhos. Nos armários, copos organizados por tamanho; potes, panelas — tudo obedecia a uma lógica quase obsessiva.

O banheiro carregava um perfume intenso de lavanda. Os azulejos eram de um branco improvável. O box era tão limpo que parecia não existir. O espelho, perfeito. Sobre a pia e nas prateleiras, frascos alinhados como se alguém ainda fosse voltar para usá-los.

Mas foi o quarto que deteve os policiais.

Antes de qualquer outra coisa, viram os papéis amassados espalhados pelo chão — muitos, incontáveis. Um deles foi aberto.

“Meu amor.”

Todos diziam o mesmo.

Alguns traziam pequenas manchas secas.

O que viria depois daquelas duas palavras, ninguém saberia. Quem tentou escrever não conseguiu ir além.

O guarda-roupa denunciava outra ausência: roupas de homem organizadas em pilhas, e espaços vazios ao lado. Cabides soltos, como pausas.

A cama estava impecável — exceto por um dos lados, levemente desfeito. Não bagunçado, mas contido. Como se alguém tivesse deitado ali tentando não deixar marcas.



A investigação trouxe fragmentos.

Um casal vivia ali. Diziam que eram felizes. Não houve gritos, não houve briga. Apenas um dia comum que terminou com a partida dela.

Uma vizinha disse ter visto o abraço na despedida. Disse também ter ouvido:

— Você sabe que eu te amo.

Depois disso, silêncio.

Quando perguntaram sobre o rapaz, houve apenas um detalhe:

Ele havia pedido uma corda.



O tempo fez o resto.

A grama cresceu. As estações passaram. Anos escorreram sem resposta.

O rapaz nunca foi encontrado.

Inventaram destinos para ele — fuga, loucura, recomeço. Histórias para preencher o vazio.

Mas a verdade seguiu em outro lugar.



A alguns quilômetros dali, no topo de um pequeno cume, havia uma árvore.

Anos antes, um jovem chegou até ela.

A vista era ampla — a cidade respirava ao longe, e o sol tocava sua pele com delicadeza. O ar tinha cheiro de vida, ainda que ele não soubesse exatamente o que isso significava.

Sentou-se à sombra.

Da mochila, retirou uma garrafa térmica, um sanduíche, um caderno e uma caneta. Comeu devagar. Bebeu o café em pequenos goles. Observou tudo ao redor como quem se despede sem dizer.

Então abriu o caderno.

“Meu amor.”

Dessa vez, continuou.

Escreveu por páginas inteiras — sem manchas, sem interrupções. Como se, finalmente, tivesse encontrado as palavras.

Quando terminou, fechou o caderno com cuidado.

Tirou os tênis. Guardou as meias dentro deles.

Pegou a corda.

Subiu na árvore com hesitação, vencendo o medo de altura como quem cumpre uma tarefa inevitável. Amarrou a corda ao galho mais firme. Ajustou o comprimento. Preparou o laço.

Desceu.

Colocou-o ao redor do pescoço.

Sentou-se de lado no galho.

E se deixou cair.



A queda foi curta.

O corpo quase não reagiu.

Abaixo, os tênis permaneciam alinhados. A mochila, organizada — garrafa térmica, caderno, caneta.

Ninguém jamais leu o que foi escrito depois de “Meu amor”.



Atrás das pernas que balançavam em pêndulo, havia uma marca na árvore.

Um coração entalhado na madeira.

Dentro dele: A + A.

E, no espaço restante, gravado com esforço:

Pra sempre.

por Afonso Baldez

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