Poema Meu - Especulação Imobiliária


Há uma casa
que é chamada de lar.

Não por falta de outras,
mas por hábito de nomear
o que permanece.

Nela, tudo foi disposto
para acolher permanências:
o chão cede onde se espera,
as portas não resistem ao retorno,
as janelas aprendem a reconhecer passos.

Ainda assim,
há quem atravesse suas portas
com frequência irregular
entra,
habita,
e parte.

Não por falta.
como se costuma dizer.

Há outras casas.

Casas de luz breve,
de corredores ainda não gastos,
de nomes que não ecoaram o suficiente.

Visita-se.
Permanece-se o bastante
para que algo seja deixado
ou levado.

E retorna-se.

Sempre se retorna.

Porque há sempre uma porta entreaberta,
não por descuido,
mas por uma espécie de espera
que não se desfaz.

Como se a casa soubesse:
quem parte
ainda não terminou de ir.

À casa
que continua sendo chamada de lar.

Do lado de dentro,
nada falta em sua forma.

Mas algo aprende a falhar
em silêncio:
um rangido novo,
uma dobra no ar,
uma demora onde antes havia encaixe.

Não há acusação nas paredes.

Casas não exigem.

Apenas sustentam
o peso do que se repete.

Ainda assim,
permanece a questão
não dita,
não resolvida:

que tipo de casa é essa
que é escolhida como abrigo

mas nunca
como suficiente.

E o que, exatamente,
significa permanecer

quando partir
também faz parte
do mesmo gesto.

por Afonso Baldez

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