Poema Meu - Fortaleza


Refletida é a tez
Do fim de tarde na face
Da mulher que chegou do ofício
No aconchego da sua maloca
Recebida pelos rebentos

Seu alento?
O cheiro do café passado
A calma do banho tomado
O silêncio da prole sonhando
Amanhã, de manhã, tudo de novo

Ela é mulher só, do povo
Loba alfa, em matilha de cinco
Afiava a espada com afinco
Para batalhas de mãe, de mulher
Contra homens, contra o mundo

Tudo nela é beleza
Tudo nela é força, fortaleza
Estrutura inabalável
De vulnerável sutileza
Sabe o real significado do sufoco
Prefere o fundo do copo, sua alegria
E não se conforma com o fundo do poço

Por vezes com fome, faminta
Jantava o resto que as crias recusavam, por birra
Era assim que forrava a barriga
Tirava da própria boca
Para a fome dos pequenos saciar

O preço de tanta força? Solidão
Sua maior fraqueza? Nosso coração
Sofria se em mim doía
Se doía em qualquer um de meus irmãos
Preferia chorar só
E ser alegria na multidão

E por viver sua vida
Por mim, por nós, primeiro
Te trago em palavras
o meu muito obrigado
E o meu amor
inteiro.

por Afonso Baldez

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