Cadê a Crônica? - Ele e Ela, a Solidão.


Ele escutou baterem na porta. Foram três batidas. Em sua cabeça ele pensara que poderia ser ela, que ela retornara. Ele correu para confirmar o que pensou, se colocou diante da porta. Em sua mão direita a maçaneta, em sua mão esquerda o coração e por todo o corpo aquele arrepio interno que sempre o preenchera em momentos de ansiedade. Ao abrir a porta ele foi tomado por um sentimento horrível, aquele sentimento, um sentimento que ele não gostava de sentir e que pensou que não fosse mais sentir. Abriu a porta pensando que era ela, que ela retornara e que pediria desculpas e se jogar em seus braços, mas não, quem encontrara ao abrir a porta era a Solidão.

A Solidão o encarou fundo os olhos, com o cenho franzido, curiosa, pensando quem ele achou que encontraria ao abrir a porta. Com a solidão, o ar frio da rua, o cheiro de sereno que só as noites de solidão carregam e aquela sensação que só a presença da solidão traz, a da falta, ausência, desconforto. Assim que a solidão terminou de fitá-lo dos pés a cabeça, desfilou até o quarto, com um andar arrogante. Antes de fechar a porta ele pôs a cabeça para fora, tentando enxergar o fantasma dela em meio a neblina que a Solidão trouxe, mas não, ele não vira nada, nem ninguém. Fechou a porta lentamente, com cabeça baixa e o vazio no seu peito.

A marcha até o seu quarto foi aterradora, sabia que aquele cômodo, antes preenchido com o amor de um casal intensamente apaixonado, agora era habitado pela solidão. Ao passar pela porta e levantar a sua cabeça, pode ver deitada em sua cama a Solidão. O quarto parecia ter sido também preenchido por aquela névoa que estava lá fora, pois o ar estava denso, sufocante. Ele não quis encarar a solidão nos olhos, ao invés disso ele observou o seu corpo nu. Um tom azul meio acinzentado, o tom de pela que remetia ao de um cadáver. Mesmo a temperatura do corpo da Solidão era fria. Ele já sabia disso, já havia se deitado com a Solidão por inúmeras vezes. Sabia que não importava o quão quente estava o seu corpo, ele sempre ficaria frio quanto tocado pela Solidão.

Ele não quis se deitar, se sentou na beira da cama. Em sua cabeça passavam inúmeros pensamentos, em sua maioria, o de que estava acontecendo tudo de novo: ele estava só, solitário, aquele vazio em seu peito estava tomando conta do corpo inteiro novamente e ele não gostava de se sentir vazio. Quando se sentia assim ele não era ele mesmo, passava a usar mascaras para que as pessoas não vissem o vazio em seu corpo, pois tudo o que já sentira e que o preenchia, tinha sido tomado pela Solidão. Pouco a pouco o seu corpo foi se curvando para a frente, sua cabeça foi baixando, os olhos foram sendo tomados por lagrimas, estas que não escorriam pelo seu rosto, apenas formavam uma película de liquido salitre em seus olhos. Ele apoiou a cabeça com os dedos indicador e médio de cada mão, pôs os cotovelos em suas coxas e respirou fundo. Pensou que aquilo não precisava se repetir, que poderia ser diferente. Pensou que já sentiu coisas melhores que solidão e que não precisara de ninguém para mandar a Solidão embora, ele mesmo era capaz de tal feito.

Então, tomado por uma sensação de ímpeto e vontade, inflou o peito de ar, decidido a mandar a solidão embora. Foi quando sentiu os dedos frios da solidão entrarem por detrás de sua camisa e percorrerem a sua cintura, o envolvendo como em um abraço. Sentiu o corpo frio da solidão, os seios dela pressionados em suas costas. Sentiu o hálito fresco e frio da solidão em seu pescoço. Ela o aperta junto ao corpo dela. Ele com os olhos grandes de desespero. Ela repousa seu queixo no ombro dele e diz:

-Vem, deita comigo. Essa noite, amanhã e durante toda a sua vida seremos só eu e você.

por Afonso Baldez

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