Poema Meu - Cubículo
Aquele universo tinha quatro paredes,
Um teto e um chão.
Tinha carinho, tinha carícia,
Tinha boa intenção — e malícias.
Tinha tensão, tinha tesão,
Tinha gritos de brincadeira,
E gritos de discussão.
Tinha conversas que não acabavam:
De manhã, de tarde, de noite...
Mas as melhores eram as da madrugada.
Aquele universo tinha duas pessoas,
Milhares de problemas —
Mas, em maior quantidade, os poemas.
Tinha cabelos crespos e cacheados,
Tinha cama arrumada, lençóis dobrados,
Mas também cama bagunçada, lençóis amarrotados.
Tinha MPB, ópera, rock, samba.
Tinha gemidos de sexo que deixavam a perna bamba.
Tinha cheiro de suor ou de banho,
De desodorante,
Ou de bergamota... ou laranja? Nunca lembro.
Aquele universo tinha roupas organizadas,
Tinha roupas jogadas,
Roupas vestidas — e roupas tiradas.
Tinha uma joia naquele universo também:
Uma pérola, ora grande, ora pequena.
Tinha cheiro de café, de cerveja,
Raramente de vinho.
Tinha a pressa dos atrasados
E, nos fins de semana, a calma — tudo devagarinho.
Tinha um pouco de desleixo,
Tinha alguma vaidade.
Tinha roupas de mulher... hoje, só de homem.
Tinha amor — hoje, tem mais saudade.
Pensar em tudo o que havia naquele universo é ridículo.
Quantas coisas mais será que cabem naquele cubículo?

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